CRÔNICAS


 Beleza no alto do Morro Saboó

Nas minhas andanças pela Baixada Santista, nas matérias que venho fazendo sobre os funcionários da Sabesp, um local que me deixou extasiada foi o Reservatório Saboó.
Apesar de ter dado um azar por causa de um dia chuvoso, o que dificultou um pouco a minha visita ao local, mesmo assim pude aproveitar e conhecer aquele local inusitado, lá no alto do morro Saboó.
Desde o início, eu já sabia que a matéria viria acompanhada de aventura, o que me deixou mais ainda entusiasmada.
Pois bem, ao passarmos por dentro da unidade do mesmo nome, o técnico que me acompanhava, chamado João de Moraes, abriu o cadeado do portão para começarmos a nossa jornada rumo ao local. A visão que tive fez merecer cada degrau dos quase 200 que teria a subir, no meio da mata e embaixo da chuva. Numa escada estreita fomos subindo e a cada passo lento, eu me deslumbrava com a beleza daquele lugar inabitado e reservado à presença somente dos empregados da Sabesp que cuidam do abastecimento de água da cidade de Santos.
Paralela à escadaria passa um troli, ou seja, um carrinho movido a cabo de aço para descida e subida de materiais, para facilitar o serviço dos empregados.
Ao chegarmos ao local, vi casinhas de madeira de apoio aos serviços realizados no reservatório, para analisar a água que é servida à população.
Além de me preocupar com a notícia, aproveitei a beleza da área e da vista do alto, composta de um lado, do Porto de Santos, o maior da América Latina e seus containers, da movimentação de pessoas e de máquinas, enfim, a energia da vida emanada do cais em oposição ao que vi caminhado para o outro lado do morro, o Cemitério de Filosofia, com suas múltiplas campas encerrando toda uma vivência terrena para o começo de uma divina.
O morro abriga também outros reservatórios, mais acima, no topo, equipamentos que o mau tempo escondeu de mim.
A beleza daquela área se misturou ao profissionalismo do Aparecido e dos outros técnicos, que cuidam do local como de suas casas. São funcionários que fazem o serviço com carinho, realizando o que gostam.
A visita durou pouco tempo, porém, a satisfação que tive em conhecer a área valeu a pena cada minuto.    

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Ditinho, o passarinho rabugento


Ditinho é o meu passarinho que ganhou este nome por conta de minha mãe.
Ele é um coleirinha já velhinho, tem mais de 14 anos e mora aqui em casa há cinco anos.
Ele era do meu saudoso pai, que desde que me conheço por gente, amava passarinhos e sempre tivemos pássaros em casa. È verdade, escrevendo estas linhas me recordo de que sempre adorei pássaros por causa dos que vi em minha casa.
Voltando ao Ditinho, meu pai conseguiu comprá-lo por intermédio de um amigo dele lá da Sabesp, pois meu amado pai também trabalhou nessa empresa, a qual estou há muito tempo.
Certa vez questionei a idade do Ditinho, daí me lembrei que ele já cantava e alegrava o apartamento em São Vicente que morei há mais de 10 anos, no denominado “Castelo de Grayskull”, o horroroso Edifício Aliança, na Rua Rangel Pestana.
Quando meu pai se mudou desse prédio, o Ditinho foi junto morar no José Menino, na divisa entre Santos e São Vicente. Nesse novo lar o Ditinho alegrou e cantou muito por lá, razão pela qual meu pai sempre o adorou.
Tudo ia bem até que meu pai adoeceu e acabou nos deixando, partindo para o outro lado da vida, para o inexplicável, o Éden ou sabe-se lá o quê. Ditinho então foi disputado pelo zelador e por meu tio.
Só que o Ditinho veio para minha casa, pois eu não deixaria ninguém ficar com ele, o meu tesouro penadinho que me aproxima e me recorda do amor de meu pai.
Ditinho agora faz parte da minha vida. Ele é chatinho, fica emburrado com facilidade é rabugento e fica de costas para mim quando está com bronca de alguma coisa, ele não é fácil não, genioso!
Escrevendo ninguém acredita, mas é tudo verdade, quando ele não gosta de alguma coisa, sai de baixo para o jeitinho dele rabugento! Ele se emburra quando está chovendo, pois adora o calor e o sol.
O Ditinho também é cheio de manias e tem apego à gaiola e ao jiló diário. Mas deixando tudo isso de lado, o canto dele é lindo e ele é muito meigo, enfim, é um bichinho maravilhoso. Eu converso com ele todos os dias e ele vira a cabecinha e me escuta. Lindo!
Infelizmente ele não está voando por aí, conhecendo o mundo, pois foi colocado em uma gaiola desde cedo, um prisioneiro, mas nada posso fazer porque ele não tem mais senso de voo e não sabe mais comer sozinho. Isso é muito triste, nunca gostei de pássaros em gaiola, mas o Ditinho apareceu na minha vida e por isso, ele merece tudo o que estiver ao meu alcance.
Se você ama a natureza, deixe a liberdade conduzir a vida dos pássaros, diga não à vida em gaiola!
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As bonecas

Sábado estava inspirada em casa e comecei a lavar minhas bonecas de infância. Sei lá, bateu uma saudade imensa de mexer com aqueles brinquedos que tantas alegrias me propiciaram quando eu era criança, e não me dei conta que o tempo passou rápido demais.
Fiquei a lavar as roupas de minhas velhas e pálidas bonecas da Estrela, que já não são mais fabricadas hoje em dia, e fui relembrando de momentos em que passei junto a elas, trocando-as e conversando com elas.
Há, minhas doces filhas! Tudo ouviam e nada reclamavam. Será que naquela época, bem, já faz mais de trinta anos, eu era feliz? Acho que sim.
Lembrei-me de como minhas brincadeiras de casinha eram tão importantes e como eu fui adquirindo àquelas bonecas aos poucos, e montando minha família de filhas de todos os tamanhos e cabelos coloridos e roupinhas da época.
 Recordei que algumas delas eu comprei na Cidade da Criança, um parque de diversão que fica em São Bernardo do Campo, pois quase sempre estava por lá. Há, que momentos felizes!
  Hoje, tudo é tão diferente! As crianças não são tão crianças, pois começam desde cedo com afazeres, cursos e trabalho. Sem contar nas meninas que já são mães de verdade, carregando seus próprios bebês e jogando no lixo toda uma juventude, atropelando fazes da vida.
  O mundo é outro. As coisas mudaram, as crianças estão se tornando “velhas” antes do tempo. A inocência de ontem, da década de 70, quando brincávamos até os 13 anos ainda com bonecas, com essa idade, os meninos e meninas já estão namorando, curtindo outras fantasias, ou então, brincando no computador.
 Mas apesar de todo esse passado, tolo ou não, eu ainda prefiro àquele tempo, quando eu e minhas amigas brincávamos com panelinhas e éramos tão felizes!   
Bons tempos aqueles.  

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Na porta da Livraria Realejo

- Qual foi a brincadeira de ontem? Foi a lanterna? Perguntou a mãe à criança, uma doce menininha de uns quatro anos de idade.
Atravessavam a rua três mulheres, mãe, filha e uma outra moça, que poderia ser a tia, a amiga da mãe ou talvez uma colega de trabalho. E assim elas seguiram seu caminho.
-Tia, tem uma moeda?
Aquela voz veio de um menino aparentando 10 anos de idade, negro, pobre, com roupas surradas, mas nada disso parecia importar para ele, pois seu rosto era bonito, refletindo ser uma pessoa feliz, apesar da situação econômica.
Vi que o garoto estava com seu pai, um senhor com roupas bem usadas e outra criança, que deveria ser o irmão do menino que me pediu dinheiro, só que esse saiu da lanchonete ao lado da Livraria Realejo, com um salgadinho.
-Vamos logo que eu tenho muito a fazer, finalizou a cena o pai dos meninos.
Os três partiram. O senhor na frente e os irmãos dividindo o salgadinho atrás.
Eu, porém, recordei o meu “não tenho” que disse ao garoto; palavras que doeram meu coração, mas na verdade, eu estava mesmo sem nenhum dinheiro, pois tinha ido caminhando para fazer um curso na livraria e somente levava caderno e caneta.
E a vida continuava latejante na porta da livraria Realejo. Sábado de sol, uma hora da tarde e personagens iam e vinham pela Avenida Marechal Deodoro.
Pessoas de todas as idades, baixas, altas, magras, gordas, brancas, morenas. As roupas e sapatos, todos no seu tempo, na sua vida, retratavam o que são, a história de cada um.
De repente, entra rapidamente pela livraria um homem moreno e de meia-idade aos gritos...
-Nego Fogaça na parada, quem diria!
-Olha o Fogaça aí, gente!
Dizendo isso, o homem abraçou um senhor que estava sentado dentro da livraria lendo um jornal. Ele estava tão quieto que até me esqueci de sua presença.
-Fogaça, quanto tempo, o que você tem feito de bom? Continuava a puxar assunto o outro que chegara.
-Eu estou aqui fazendo hora, pois estou esperando um casal de amigos me ligar. — Dizia Fogaça. — Eles estão na Cidade desde domingo passado, estão num hotel, perto daqui do Gonzaga.
E o homem continuou falando com o amigo; assuntos que eu já não conseguia mais ouvir.
Os minutos passavam lentamente. Olhava para o meu relógio bege e pequeno em meu pulso e o ponteiro parecia não sair do lugar. Toda aquela calma me fez refletir sobre minha vida, meus entes queridos doentes, minha avó que partiu há três meses, meu trabalho fatigante; enfim, pensamentos que não param, não nos deixam em paz.
Eis que um barulho de freada de carro tira o meu sossego. Olhei rapidamente para a rua em busca de um atropelamento, tamanha foi a brecada. Vi que várias pessoas olharam também.
Levantei-me para ver melhor o que acontecia e para minha surpresa, nada de mal havia acontecido. Foi uma moça que tentava atravessar a rua empurrando uma senhora sentada em uma cadeira de rodas, nada mais.
Era uma jovem franzina e a cadeira parecia maior ainda se comparada à estatura da moça. A senhora não falava nada. As duas pareciam entender-se muito bem. 
Bem o barulho da freada foi porque os dois homens que estavam no carro pararam e fizeram os outros pararem também para a jovem passar. Sim, eles não se aborreceram que o sinal estava verde para eles e, com a maior educação e boa-vontade, acenaram para a moça, que toda sem graça, atravessou a rua com a cadeira.
Que exemplo de cidadania e cordialidade, fiquei feliz pela cena. Os homens, sem dúvida, mostraram que as pessoas merecem respeito.
De repente, me senti como a mulher invisível das histórias em quadrinhos, pois as pessoas passavam, me olhavam, mas não me viam. Não notavam ou não perceberam que eu as estava observando. Elas olhavam para a livraria, os livros, mas eu nada significava para elas.
Na porta da Realejo, a minha insignificância dava-lhes um significado, uma razão para existirem, personagens de minha crônica.
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O gatinho do Cândido Valejo

De mansinho o gatinho preto foi se chegando ao prédio, como quem não quer nada, assim meio sem jeito.
O gatinho apareceu numa tarde no edifício de três andares Cândido Valejo, cujos sete apartamentos dispostos numa pequena área de concreto, nada teria a oferecer ao pequeno bichano.
Sem área de lazer, o prédio mal tem garagem, mas mesmo assim, foi o local escolhido pelo gatinho, que depois de idas e vindas, decidiu permanecer.
O gato, que a princípio surgiu do nada, escondia um passado nada feliz, que depois de tempos foi-se revelado.
O diferencial do pequenino animal com dispostas manchas brancas no peito e patinhas era o seu miado, que era mais um choramingo do que outra coisa. Aos moradores do Cândido Valejo ele se aproximava chorando, com uma carinha de pidão e que cortava o coração de todos. Um vizinho entrava, outro saia, e o gatinho seguia todos até o portão com seu fatídico chorinho.
Instalado num porãozinho, o gato ganhou sua casinha, que para ele, estava perfeita. Não bastasse a mordomia recebida pelos moradores, o gato conhecido como Chorão ou Boca mole desapareceu numa sexta-feira.
Sem ninguém saber para onde o bichano tinha ido, ele reaparece depois de três dias com a boca toda machucada, resultado de uma briga ou de uma farra com alguma gatuna.
Bem alimentado e com o machucado curado o Chorão continuou com seus encantos junto aos condôminos, que paparicavam o bichinho com carinho e atenção.
Como o sossego daquele prédio volte e meia era ameaçado por alguma intempérie, na madrugada de uma quinta-feira, lá pelas três horas da matina, acordei assustada com miados agudos de gatos. Com o tremendo barulho, nem tive tempo de chamar meu marido, que num salto já estava em pé e colocando os chinelos para descer e salvar o gatinho de outro, que aparecia às vezes para perturbar o nosso Chorão.
Depois de alguns minutos, eis que entra em casa o meu marido, rindo sem parar, e falando do que presenciara:
 — Você não pode imaginar na cena dantesca que vi lá embaixo, dizia meu esposo rindo, — o seu Daniel, de 80 anos, já estava lá de ceroula rasgada com as partes a mostra pondo para correr o gato que veio brigar com o Chorão. — Dizia ele, acrescentado que o bicho era duas vezes maior.
Depois desse episódio, outros apareceram e o gatinho firme e forte foi vivendo seus dias no edifício. Porém, não se podia deixar o portão da entrada aberto porque o Chorão já se enfiava pelo prédio e queria acompanhar o morador até seu apartamento, pois fora criado em um.
O Chorão trouxe proximidade entre vizinhos que não se falavam há tempos. Numa dessas conversas, fiquei sabendo que o gatinho veio de um prédio do outro lado da rua de uma mulher maluca que tinha 15 gatos dentro de casa e foi embora deixando todos trancados. Vizinhos chamaram a ZOONOSES, que levou os bichanos, o Chorão, porém, muito esperto fugiu e veio parar aqui no Cândido Valejo, que não é grande coisa, mas os moradores de bons corações, adotaram o pequeno mascote.

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A Borboleta marrom

A borboleta marrom apareceu e discretamente se fixou numa parede do hall do auditório do escritório onde trabalho.
Depois de duas vezes passando no local é que reparei na solitária e quieta criatura, bela por sua tonalidade marrom e por seu tamanho.
Na sala, as estagiárias falavam sobre ela e perguntavam a cada um que entrada na sala:
— Você viu a enorme borboleta que está no corredor?
Ai começou o debate se era borboleta ou mariposa, pelo tamanho grande do bichinho.
O que me intrigou acerca da borboleta não foi seu tamanho ou procedência, mas sim, que uma das estagiárias hoje, em pleno século XXI, ainda acredita que a borboleta é perigosa por que solta no ar uma espécie de pó que faz mal as vistas e poderia até cegar. 
Nossa, quando escutei sobre isso, não acreditei, pois em minha infância, isso lá nos anos 70, as crianças tinham um medo tremendo de borboleta desse tipo por causa desse mito, tão esquecido no tempo e ao mesmo tempo, tão atuante ainda.
Depois de quase um dia de hospedagem, a borboleta partiu no final da tarde sem deixar vestígios e a estagiária, no seu pavor, deu a volta pelo prédio só para não passar perto da borboleta!

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